São Paulo, como muitos atestam, é a cidade brasileira onde as novidades chegam primeiro e as tradições levam mais tempo para ir embora. Escondido numa rua do Centrão existe o que provavelmente é a última loja especializada em chapéus masculinos do País.
Entendam bem: não se trata de reles bonés, caps ou gorros, comuns entre a molecada de hoje em dia. São nobres panamás, boinas, quepes: peças definidoras do vestuário cavalheiresco de um passado que já se mede em décadas. Fábricas semi-artesanais do interior paulista que despacham para clientes em várias partes do mundo reservam grande estoque para brazucas ainda preocupados com largura de aba ou circunferência craniana. Entre esses fabricantes está a empresa brasileira que produziu o chapéu original de Harrison Ford em “Indiana Jones e a Última Cruzada”. Réplicas exatas podem ser vistas na vitrine e levadas para casa!

Sim, você também pode ser Indiana Jones!
A ancestralidade reinante, marcada pelo cheiro de mofo, prateleiras amontoadas e velhinha cansada e resignada no comando da caixa registradora, tem como ponto alto este instrumento manual fabricado provavelmente em 1890 ou pouco após: um alargador de chapéus. Sim, senhoras e senhores, um alargador de chapéus: robusto construto de madeira maciça que muito se assemelha a um aparato de tortura medieval. Felizmente, sua força implacável só pode ser aplicada contra boinas e assemelhados que teimem em não entrar na cabeça do comprador. Taí um gadget que Apple Store nenhuma do mundo ousaria dispor no catálogo…

Diretamente das câmaras medievais de tortura, apresentamos...
Assistir a um profissional especializado pondo aquele engenho para funcionar remete o visitante a uma época em que a elegância reinava e o compasso das horas analógicas permitia parar e admirar o movimento (sem pressa… calculado nos dedos…) de um alargador de chapéus.

"Salta um dois-números-maior pro cabeção aqui!"
Confesso que buscava realizar o sonho de finalmente comprar um chapéu para flanar pelas ruas com estilosa proteção para o sol. Vi minhas esperanças arruinadas quando constatei que, em todo o estoque disponível, não havia um chapéu sequer que coubesse na minha cabeça. Revelação do dia: sou “Charlie Brown” demais para os padrões da indústria chapeleira. Só daria certo se eu encomendasse: uns meses para ficar pronto e uma fortuna para custear. Desisti.
Deixei a loja portando na cabeça apenas um incomparável monte de frustração. E, claro, uma gana extraordinária de escrever no Cidade Louca.
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